A EMPATIA NA CONSTRUÇÃO CIVIL

Chamo a atenção para o “mundo” do canteiro de obras e seus desafios humanos. Na prática, a terceirização e a troca constante de profissionais dificultam o entrosamento e o espírito de equipe. Some a isso estilos de liderança autoritária, com pouco diálogo, e o risco de conflitos virar rotina.

O ponto crítico é que isso não é “mimimi”: entra como fator de risco psicossocial relacionado ao trabalho, previsto na NR 1. A saída passa por educação, treinamento e, principalmente, empatia como competência de liderança.

– Quando o ambiente fica mais humano, o ganho aparece em segurança, clima e produtividade.

É sabido que, no mundo atual, relações interpessoais, espírito de equipe e entrosamento entre setores estão combalidas tanto físicas como psicológicas, com origem em diversos fatores que atuam no dia a dia das pessoas. Na Indústria da Construção Civil não é diferente, merecendo análise e estudos para eliminar estas situações.

Neste texto vou me ater ao Canteiro de Obras pela sua importância em qualquer empreendimento, seja o mesmo grande ou pequeno.

Antes necessário se faz lembrar os leitores:

Obs.1: Na indústria estabelecida o trabalhador fica parado, o produto fabricado passa por ele e depois sai do local de produção. Na indústria da construção civil o produto fabricado fica parado, o trabalhador se movimenta por ele e depois sai do local de fabricação.

Obs. 2: É comum, na construção civil a terceirização da mão de obra e a decorrente troca de profissionais em atividades nas diversas fases da obra, o que leva à constante alteração das equipes no canteiro de obras. Com estre entra e sai de trabalhadores fica difícil conhecimento mais profundo entre os profissionais.

Obs. 3:  Mestres, encarregados e líderes de equipe normalmente são autoritários, pouco compreensíveis e tem pra si que sabem mais que seus liderados comportando-se de forma pouco social no trato com eles. Estas situações fogem do normal quando tratadas por profissionais que desconhecem o que é o “mundo” de um canteiro de obras.

Agora, o que é Empatia e onde entra a Empatia?

Empatia: Capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de aprender do modo como ela aprende.

Com outra forma de apresentação

Empatia: Tendência para sentir o que se sentiria caso se estivesse na situação e circunstância experimentada por outra pessoa.

Onde entra a Empatia?

Para esta resposta, vamos recorrer às NRs (Normas Regulamentadoras Brasileiras), com ênfase para a NR 1 Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais que servem de base para as demais normas.

Evitando ocupar espaços com material que pode ser visto e analisado nas NRs vou me ater apenas em um ponto da máxima importância e merecedor de elevada atenção de empregadores e empreendedores/construtores e fiel ao título, em obras de construção civil.

Atenção para o determinado na NR 1

1.5.3.1.4 O gerenciamento de riscos ocupacionais deve abranger os riscos que decorrerem dos agentes, físicos, químicos, biológicos, riscos de acidentes e riscos relacionados aos fatores ergonômicos, incluindo os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.

1.5.3.2.1 A organização deve considerar as condições de trabalho nos termos da NR 17 incluindo os fatores psicossociais.

1.5.4.4.5.3 Para a probabilidade de ocorrência das lesões ou agravos à saúde decorrentes de fatores ergonômicos, incluindo os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho,a avaliação de riscos deve considerar as exigências da atividade de trabalho e a eficácia das medidas de prevenção adotadas.

Atenção aos que ainda não se deram conta de uma novidade:

Fator de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho:

São inúmeros estes fatores de risco, mas considerando apenas os que se referem ao relacionamento interpessoal no dia a dia do canteiro de obras é possível destacar:

Estilo de liderança: autoritária e sem diálogo.

Relações do líder com seus liderados: assédio moral, assédio psicológico.

Lider exigindo jornada extensa, acumulo de tarefas.

Muitas outras situações no mesmo foco levarão ao surgimento de fatores de riscos psicossociais no canteiro de obras, sendo o empregador responsável pela eliminação e controle dos mesmos.

Como o empregador conseguirá este objetivo, dirão alguns leitores?

Novamente cito o óbvio, sempre presente em minhas manifestações.

Treinamento, palestras, educação, princípios que norteiam uma boa relação interpessoal.

O empregador, por ser legalmente responsável por seus trabalhadores, deve proporcionar formas de aprendizagem por parte de seu pessoal em posição de lideranças para conquistarem formas de bons relacionamentos e tratamento educado civilizado voltado para seus liderados. O principal foco para esta mudança é o conhecimento, domínio e aplicação da Empatia.

Alcançar este objetivo deve ser uma constância desde a direção da empresa até todos os trabalhadores a ela ligados para, de imediato, ir em direção de um perfeito ambiente de trabalho em seus canteiros de obras no que se referir aos fatores de risco psicossociais acima citados.

Por óbvio existem, além desses, vários outros fatores de risco psicossociais cujo trato e eliminação se dá por ações físicas da empresa como, por exemplo, ambiente de trabalho tóxico, condições de áreas de vivencias, equipamentos de proteção outros.

Creio, por experiência pessoal, que ações para levar a Empatia aos trabalhadores são as que necessitam de tempo, constância e atenção pois interferem, muitas vezes, em princípios arraigados nas pessoas que não são fáceis de alteração. Também por experiência pessoal e profissional me atrevo a insistir que em canteiros de obras onde o relacionamento pessoal é tranquilo o resultado obtido na produção superará as expectativas.

Justificativa:

O registrado acima trata da abordagem e alerta para um dos fatores de riscos psicossociais sendo, talvez, o mais importante deles. Novamente, ambiente tranquilo em um canteiro de obra facilita a abordagem e eliminação dos vários fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho e aqui não citados.

Cabe salientar que este texto é apenas a ponta do iceberg quando tratado este tema, sendo sua intenção tirar profissionais, que não entenderam ainda sua extrema importância, de sua zona de conforto e passem a dar a devida atenção a esta parte da normatização brasileira.

E no caso da terceirização da mão de obra, qual a responsabilidade do contratante maior?

Bem, este é assunto para um novo futuro texto.

Como sempre o contraditório será bem-vindo.

Artigo originalmente publicado no site: https://www.rsdata.com.br/blog/

Eng. Ussan


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